tanta tormenta, alegria

22 de mai de 2011

Som, fúria e bom humor

Semana de correria e canseira. Não consegui mais que rabiscar as tranqueirinhas abaixo.

1

Noutra noite, durante uma janta, amiga perguntou se li “O Som e a Fúria”. Li, sim. Então ela pediu que eu explicasse que raio acontecia no livro e me dei conta de não ter a mais remota lembrança. Minha cara de tacho deve ter fulgurado na escuridão, visível a quarteirões de distância.
 
Li “O Som e a Fúria” há uns 20 anos mais ou menos, quando morava perto duma biblioteca para onde minhas roupas iam sozinhas, depois de um tempo, quando eram penduradas no cabide.
Lembro que li também “Absalão, Absalão”, e que andei um tempo declarando o Faulkner o melhor escritor americano.
Depois nunca mais li.
 
Fui, então, após a descoberta do blecaute lítero-mnemônico, ver o que ainda lembraria de outras leituras.
Que desconsolo...

Alguns se encontram na mesma situação de “O Som e a Fúria”: “Nossa Senhora das Flores”, “O Quinze”, “O Balcão”, “Judas, o Obscuro”, “Orlando”, “O Sol Também se Levanta”... parêntese para notar que lendo ou relendo alguns destes livros hoje, desconfio que os detestaria.
De outros esqueci detalhes de enredos ou personagens, mas ainda lembro com maior ou menor clareza da idéia central, ou da impressão que a leitura me deixou: “O Longo Adeus” (futuro clássico), “O Retrato de Dorian Gray” (chaaaato...), “O Chamado da Selva” (um dos maiores encantos literários que já tive)...

O que fica, quando acabamos um livro? Sei que as leituras são tantas quantos são os leitores e quantas as circunstâncias em que acontecem, mas não existirá alguma coisa comum a todas?
Não sei. Acabei concluindo que eu, quando leio, não dou grande atenção a enredo, e quando acabo de ler, o que me fica na memória, passado um tempo, são uma estrutura e um punhado de imagens, além do significado que o livro teve para mim, se o teve.

2 
Humor é simples: se é engraçado pode, se não, não.
Não é de bom tom, sim, fazer piada com alguns assuuntos. Mas tudo depende de circunstâncias: quem, onde, quando e como conta a piada.
Danilo Gentili não tem graça. O CQC não tem graça. O programa lá da MTV não tem graça.
 
Mas o que me espanta mesmo, embora não devesse, é que tanta gente se incomode e se indigne tão facilmente, por motivos que a mim soam tão insignificantes. São palavras, ditas por alguém que as pessoas só conhecem de TV, e cujas opiniões (nos dois casos nem isso), a bem da verdade, não lhes afetam em nada a vida.
 
Já escrevi sobre isso, mas talvez o assunto ainda renda.
Parece que temos uma noção meio tortinha de tolerância. Parece que existe um fetichismo da tolerância, cujo resultado mais óbvio é a geração de intolerância.
Tolerar não significa concordar, nem discordar mas se abstendo de criticar por respeito à opinião alheia.
Opiniões não têm que ser respeitadas, pessoas têm.
Opiniões têm que ser discutidas e quando necessário massacradas, para que pessoas não sejam massacradas, quando opiniões são transformadas em atos.
Mas isso é importante: Quando transformadas em atos. Opiniões simplesmente expressas em palavras nunca devem ser silenciadas, porque aquilo que se cala à força tem por hábito não se calar, aquilo que banimos sem compreender sempre volta para nos assombrar e, se puder, destruir.
 
Outra coisa: tolerância não é, também, uma discordância cordial à respeito de nós de gravata e padrões decorativos de cortinas. Tolerância pressupõe que o que se tolera nos seja desagradável e significativo.
 
A tolerância é a última trincheira da civilidade. Quando se esgotaram todos os outros recursos, usados para assegurar a convivência pacífica entre diferenças, é a ela que se recorre. Não antes disso, porque aí estaríamos usando a idéia de tolerância como a peneira que tapa a nossa solar indisposição para o debate.
Nós brasileiros não conversamos. Desconversamos.

12 de mai de 2011

La donna è móbile - june miller

Dois

1
Uma boa pessoa nem sempre é uma pessoa boa, enquanto uma pessoa boa dificilmente será uma boa pessoa.
A boa pessoa, homem ou mulher, é aquela de quem você não gosta muito, porque ela é meio tapada, e porque ela não tem nenhuma qualidade visível além do fato de não ser insuportável. Mas ela costuma ser educada, cumprimentar e agradecer, e saber quando falar ou calar. Mesmo quando um estorvo ou uma chateação, ela não te faz sentir vergonha de partilhar com ela o planeta e a espécie. Às vezes uma boa pessoa pode até se tornar uma boa amiga. Raro, mas acontece.
Já a pessoa boa é sempre um estrupício com que se lida a contragosto, alguém que te permite exercitar a virtude do autocontrole, pois a cada segundo você resiste ao desejo de esganar a pessoa boa.
Ela é quem vai tentar te convencer a não fumar e não beber. É quem vai te envergonhar tendo um chilique público se um cigarro for aceso perto dela. É quem vai te aconselhar ( a pessoa boa aconselha muito) a dizer a verdade pra sua mulher, porque a verdade, a pessoa boa dirá, é sempre o melhor caminho (e nessa hora você quase cede àquele impulso de esganar a pessoa boa).
A pessoa boa é quem vai comentar sobre aquele filezinho: “Ih... não quero nem ver o que faz com as artérias...”
A pessoa boa sempre diz a coisa errada na hora errada e nunca sabe (ou quer) se calar, porque ela fala pelo seu bem.
A pessoa boa é aquela a quem você quer pedir (e tão raramente o faz, porque você é uma boa pessoa) que devolva sua bondade ao coldre e observe a distância mínima recomendada pela cortesia.
Ninguém suporta a pessoa boa.
Cuidado com a pessoa boa.

2 
O homem de fé se abriga à sombra do seu oásis.
O homem sem fé mastiga a areia quente dos desertos.
O homem de fé repousa no abraço generoso de todas as coisas criadas.
O homem sem fé arqueja e com suor e dor modela um mundo a sua imagem.
O homem de fé sabe que tem razão.
O homem sem fé sabe que razão não há.
O homem de fé defende o bem e enfrenta o mal.
O homem sem fé debate-se para escapar ao arame farpado das abstrações.
O homem de fé espera merecer a graça de habitar a morada imaterial da glória.
O homem sem fé sabe que da terra colheu pedras e ergueu a melhor casa que pôde.
O homem de fé conforma sua natureza de homem à lei que crê superior.
O homem sem fé conforma sua lei de homem à natureza que crê superior.
O homem de fé não ofende com seu corpo à dignidade do seu deus.
O homem sem fé não ofende com seu corpo à sua dignidade de homem.
O homem de fé sente medo e frio.
O homem sem fé sente medo e frio.
O homem de fé mata e morre.
O homem sem fé mata e morre.

7 de mai de 2011

Batuque na cozinha

- Estando atolado em livros e jornais e que tais a maior parte dos dias do que já é há tempos, com a idade, a maior parte da minha vida, me acontece muito pensar na utilidade ou não desse ajuntamento de tranqueiras a que nos entregamos.
Minha biblioteca, por exemplo, tão pequenininha, é duas ou três vezes maior que a do Montaigne, que devia ser uma das maiores bibliotecas particulares do tempo em que ele viveu, século 16.

E quem diz que eu vou precisar desses livros todos, ou que a posse (e a leitura, certo, sejamos justos comigo) desses livros todos, vai me ser útil ou benéfica?
Digo, temos tanta, mas tanta, informação, e quase nada do que produzimos a partir dela é digno de lembrança uma semana depois de lido, visto, ouvido ou cheirado.
Shakespeare devia ter menos livros do que tenho numa prateleira...
Sei, sei, o mundo é mais complexo, as sociedades modernas isso, aquilo e aquele outro e tal e coisa e coisa e tal.
Mas a sensação é que emburrecemos.

Isso de forma alguma me põe junto àqueles que condenam o excesso de informação como emburrecedor. Não, sempre acho que é melhor pecar por excesso que por falta. Nós é que parecemos ter nos esquecido como nos mover entre o melhor e o pior. 

Um bom exercício para quem acredita que ler indiscriminadamente é benéfico, seria passar um tempo vendendo livros num sebo. Nenhum gênero vende mais que livros espíritas. Tenho certeza que um devoto ou estudioso do espiritismo, e quase todos os devotos do espiritismo são estudiosos, lê muito mais que um professor de letras da USP ou da PUC.
Mas lêem o quê? Livros espíritas.
Se leitura, por si, tivesse algum valor educativo, as filas de médiuns sem emprego vendendo avons e naturas fariam disparar as estatísticas dos engarrafamentos em São Paulo.

Católicos não lêem nada.

- É constrangedor, mas não tem como eu fugir da confissão:
Desde criancinha eu sempre quis fazer um desses quadros com cotações de filmes e discos e livros, que vejo desde sempre em jornais e revistas. Agora, pois que aqui estou, proprietário único e mandatário absoluto deste poderoso baluarte da imprensa digital, hei de enfim entregar-me à satisfação deste meu pequeno prazer solitário.

Cotações
- - - Vade retro!
- - ruim
- passável
+ bom
++ ótimo
+++ Deus existe!

Filmes
A rede social -   Cisne negro - - -   O discurso do rei -   Bravura indômita (Coen Bros.) -   Garotas do abc -   Filme de amor - -   A mocidade de lincoln +   Um homem sério ++   Invictus +   Neste mundo e no outro -

Livros
Todo homem é minha caça (Millôr, Record) ++   Em algum lugar algum (Ferreira Gullar, Record) ++   Missa negra (John Gray, Record) +   The spectator volume 1 (Joseph Addison e Richard Steele, Projeto Gutemberg) +++   Sexo na cuca (Deborah Blum, Beca) +   Melhores crônicas de ignácio de loyola brandão (Global) - - -

Discos
The voice that is! (Johnny Hartman) +++   Variações goldberg com Glen Gould +++   Variações goldberg com Pierre Hantäi ++   Complete savoy recordings (Billy Eckstine) +++  

TV
Veronica mars ++

- Dia desses fui acordado pelo toque infernal, insistente, histérico, do telefone. Fechei os olhos e tentei não atender, como faço de hábito, mas o troço não parava. Capitulei.
Era uma senhora de certamente mui distinta progênie, querendo me vender frios e laticínios.

Penso muito no Schopenhauer, que reclamava do barulho das carroças na rua onde morava, e me pergunto em que buraco fomos nos meter...

- Tem quem não goste de cinema inglês. Eu, quando escuto ou leio algum bestinha, que quase sempre o são aqueles que se declaram adeptos dessa estranha forma de perversão do gosto, eu, dizia, quando trombo com um deles, reviro os olhos e respiro fundo e rezo, pedindo às Musas que iluminem as mentes obscuras.
Que o cinema inglês é uma das delícias restantes sob os escombros daquilo que um dia se chamou, com muita esperança e pouco senso, de arte do século 20, é um fato que só os críticos deveriam ignorar.
Mas se até mesmo um sujeito bacaninha que nem o civilizadíssimo José Lino Grünewald a certa altura dos anos 60 achou de acreditar que o cinema brasileiro era mais importante que o inglês, o que esperar dos mais tosquinhos?
Se até o Ivan Lessa já deixou escrito que cinema inglês não há não senhor, que esperar dos mais lerdinhos, aqueles que ainda acreditam nas vagas vogas da Nouvelle Vague?
Eu sei, e simplesmente sei e não peça que eu explique porque tenho preguiça, que o pior filme inglês é melhor que o melhor filme francês ou, credo, brasileiro. Os americanos e os japoneses podem olhar para eles de cima. Os italianos podem lhes falar sem corar nem baixar os olhos. Mas francês e sueco e alemão e russo? Delírio de crítico.

- O clichê diz que João Cabral jamais escreveu um verso além da conta, enquanto Drummond escrevia e publicava demais. Certo sobre Drummond, errado sobre Cabral. Ele tem livros inteiros que podem ser dispensados sem dó nem piedade.
Outros poetas houve, e há, no Brasil, mais criteriosos que ele. José Paulo Paes, Roberto Piva e Ferreira Gullar são alguns.
Que alguns poemas de Cabral valham quase toda a obra de Paes e Piva, é outra discussão, que talvez fosse divertida. Mas sei não, com o Gullar a briga é braba.

- Poucos jornalistas hoje mais modernos que Heine. Morreu em 1856.

Aliás, alguém lembrou de comemorar, este ano, os trezentos anos(!!!!!) do The Spectator de Addison e Steele?

2 de mai de 2011

If i only had a brain

Uma dor aqui na cacunda, assim que nem umas fisgada no lombo, não me deixa ficar sentado em frente ao computador. Mas eu queria, de acordo com o que diz o botãozimho embaixo da caixa de texto onde escrevo, "publicar uma nova postagem", só para não perder o ritmo. Então vou reeditar um troço escrito noutros dias, quando as neves d'antanho...



A burrice é uma forma da loucura? E a inteligência?
A gente já nasce um burraldino pronto, ou só com a inclinação, que tem que aprimorar depois?
Eu me perguntava essas coisas dia desses lendo o jornal. E tanto elas me atormentaram que fechei o jornal e, invocando o Rodin, inclinei o corpo para a frente e apoiei o queixo no punho fechado e fiquei lá, meditabundando, por um tempinho bem razoável.
Não respondi a nenhuma das perguntas, mas fiz uma descoberta.
Tá, não é bem uma descoberta, porque acho que eu meio que já sabia, mas é sim uma certeza que só agora brotou robusta, à la baobás do Pequeno Príncipe.
Nada é mais fascinante que a burrice.
Não sei como funciona, essa mecânica da cretinice, entre os outros animais. Sei que nós humanos não podemos ver uma besteira sendo perpetrada que não nos deixemos ficar lá, à roda do cretino, mesmerizados.
Considere a burrice rochosa e impenetrável de quase todo mundo que você já conheceu. Agora seja um pouco mais honesto e considere a sua também. Lembre que todas, mas todas mesmo, as histórias que você já leu, ouviu ou assistiu tratam de uma forma ou outra dessa burrice. Repare em como ela é multiforme, em como existem mais cores, modelos e tamanhos de burrice do que de tênis muito loucos. Diga que eu não tenho razão quando afirmo que a burrice é uma praga maior que todas as outras, seja câncer, piolho, locutor esportivo ou gafanhoto. Se não concorda, responda: quantos cânceres você teve hoje? E piolho? Já locutor esportivo e gafanhoto a gente sabe que não existem mesmo, ali, no duro. Só no Animal Planet. É só desligar a TV. Mas em quantos idiotas você já tropeçou hoje, sem poder escapar?
Tem mais. Tente calcular quanta vida você gasta lidando com burraldinos. Veja como você dedica mais tempo a eles do que à sua namorada. Sim, porque não existe mulher bonita, por mais bonita e adorável e amada que seja, que te ocupe a cabeça que nem um autêntico ato de burraldice cometido por um Homo Burraldinensis* imaculado. E isso já nos diz alguma coisa sobre a sua inteligência.
Mesmo a beleza mais nobre não existe sem a burrice. Pense nas tragédias. Pense em Édipo. Matar o pai e casar com a mãe e causar a ira de Apolo, tudo sem saber, tudo antes do começo da peça, digamos que não qualifica o sujeito ao título de crânio, certo? E nem quero falar do Hamlet.
Pense nisso tudo e admita: nada é mais fascinante que a burrice.
Ela é onipresente, não Deus. Deus mora na sua cabeça e pronto. Ela está embaixo de cada pedra, em cima de cada árvore, no fundo de cada mar. A burrice, ela sim, é o Mistério. Big-Bang, singularidade, a natureza do bem e a essência do mal? Tudo piada. Eu quero ver é alguém me explicar a burrice. Ela é imprevisível, incontrolável, irredutível.
E indispensável.
Imagine um mundo sem atores, sem atletas, sem apresentadores de televisão, editores de suplementos culturais, críticos de cinema ou literatura, sem presidentes!
Imagine um mundo inteiro só de Bertrand Russells.
A vida seria um inferno, e o suicídio um sacramento.
Não. A burrice é que nos ocupa o espírito e a mente e impede que afundemos em nossas poltronas até morrer de tédio.
Ela é que mantém o mundo coeso. Ela é que nos mantém unidos como espécie. Porque, de verdade, o que é que nós temos a ver um com o outro? Te garanto que eu não tenho nada a ver com você, muito menos com aquele gordinho ali tirando caca do nariz. Precisamos de guerras e catástrofes, burrice em tom épico, burrice cósmica, para compartilhar nosso único sentimento comum: a fascinação pela burrice.
E sabe que no fim isso até me fez sentir uma alegriazinha, que até ergui uma sobrancelha?
A paz invadiu o meu coração, eu vi que tudo era bom, tudo estava no lugar, e a dança do universo tinha o seu ritmo. Se tudo que precisamos ter para nos confortar é burrice, então bem, que seja, o estoque é infinito! É talvez o único recurso natural inesgotável.
Mas a euforia não vingou. Lembrei que a burrice pode ser o mais abundante bem no universo, mas a inteligência é escassa.
E a contemplação, e o bom aproveitamento, da burrice, própria ou alheia, estão reservados justo aos inteligentes.
Aí abri de novo o jornal e voltei a ler.

*Mencken batizou o idiota americano comum de Boobus Americanus. Bom, a americana é, na verdade, só uma das variedades do Homo Burraldinensis 

28 de abr de 2011

A frança mostra a cara

Negócio com leis é que tendem a ser respeitadas por quem respeita leis. Não digo que sejam inúteis. São inevitáveis. Mas são um transtorno, e na maioria da vezes... é, bom, inúteis. Ou não precisaríamos de polícia para ver que sejam cumpridas.
Sendo um transtorno, deveriam ter seu número limitado àquelas realmente necessárias e práticas. O que não me parece ser o caso dessa lei francesa tão comentada.
Ah, os franceses... Tanta coisa boa a ser dita sobre eles... e tanta besteira dita e feita por eles... Lógico, eles não têm o monopólio da irracionalidade, é possível até (mas eu duvido) que nem ocupem nenhuma das primeiras posições na lista dos grandes perpetradores de idiotice. Só que eles acham que são o contrário, os guardiães da razão no mundo assolado por la folie... Ah, os intelectuais franceses... aquela saraivada de adjetivos, aquela propensão à tautologia, aquele tatear no escuro do pensamento em busca do interruptor, que há tempos vêm passando por estilo e inteligência franceses...
Onde a clareza maravilhosa de Montaigne e de Voltaire?

Mas a lei. O que tenho visto em jornais, não só no Brasil, tem sido no mínimo desinformativo. Pude entender, juntando trapos de notícia daqui e dali, é que a lei proíbe não a burca e o niqab, como em geral se vê nas folhas, mas toda e qualquer cobertura facial (máscaras, capacetes, máscaras de esqui, inclusive cachecóis enrolados de modo a cobrir o rosto) no sempre elegante linguajar oficial e oficioso, e não símbolos religiosos. É engraçado que ela não proíba justamente o uso das tais coberturas faciais nas poucas situações em que elas são realmente necessárias, ou seja, para motoqueiros, bombeiros, em algumas condições no inverno... As justificativas mais alardeadas para a existência da lei têm sido duas: segurança e a preservação do caráter laico do espaço público.
Quanto à primeira, a frase com que abri esta papagaiada resume o que penso. É possível que alguém racional acredite que um perverso malfeitor, seja terrorista, seqüestrador, assaltante, vai deixar de cometer um crime, preocupado com a multa que pagaria se escondesse o rosto? Me parece que alguém disposto a explodir uma estação de trens, um avião ou mesmo uma casinha de cachorro já ultrapassou este estágio há bastante tempo... Aliás, acho que um bandido espeertinho há de saber que andar pela rua com a máscara do Reagan, ou com máscara de esqui no verão, vai parecer suspeito com ou sem lei.
O segundo argumento é negado pela própria lei, que não proíbe a exibição de nenhum símbolo religioso que não cubra o rosto.

Logo, o que se pode concluir?
Visto que as únicas pessoas obrigadas mesmo a mudar seus hábitos por causa da lei são as mulheres muçulmanas que usam a burca e o niqab cotidianamente (pouquíssimas, de acordo com as estatísticas) é de se supor que a lei, na verdade, se destine a elas. E que tenha sido motivida pelo desejo do governo francês, centro-direitista, de se curvar à xenofobia crescente (aliás, é incrível que ela ainda possa crescer mais na França) e tentar evitar a bastante possível derrota para a extrema direita, nas eleições vindouras.

É preciso que eu diga, não estou defendendo o uso de burca ou niqab. Sei que a maior parte dos muçulmanos, homens e mulheres, condena esse uso, inclusive autoridades religiosas, que dizem não existir no alcorão nada que o justifique.
Mas que algumas mulheres se vistam assim (e que algumas o façam a contragosto, pressionadas por famílias ou maridos, ou ainda que voluntariamente, condicionadas por hábitos vetustos, é outra discussão) me incomoda menos que o serem elas forçadas a não fazê-lo, através de uma lei que grita sua inutilidade e seu caráter discriminatório (também sei que toda lei discrimina alguma coisa, diacho, é para isso que ela serve; a chave aí é a inutilidade).

De tudo que li, apoiando a criação da lei, a única observação que achei interesante e capaz de levar a uma boa discussão, foi a de João Pereira Coutinho, quando diz que a lei deve ser louvada como a forma encontrada por um governo moderadamente direitista para evitar que um eventual governo ultradireitista promulgue leis ainda mais restritivas. Não concordo, mas dá para discutir um pouquinho.

22 de abr de 2011

CVCine

Todo mundo precisa, vez em quando, de um feriado mental, e uma das coisas que o cinema faz direitinho é fornecer cenários pras nossas vidas imaginárias. Cada filme é um lugar diferente fora do mundo real. E por mais que as gentes sérias aí pelas folhas, páginas e telas apregoem as seriíssimas implicações e intenções das artes e entretenimentos, eu tenho pra mim e aqui vos digo, meus queridos, que uns... vá lá, 97,62% dos méritos de qualquer livro, filme, quadro, sinfonia, estão justamente na sua capacidade de embaçar nossa realidade intolerável. As Musas são as agentes de turismo do espírito. E melhores não há.
Na verdade eu acho mesmo que toda a linguagem humana foi criada pra nos distrair da realidade. Na verdade, indo um tiquinho mais longe, eu acho mesmo que tudo que a gente faz e fez, de se apaixonar a criar cidades-estado, serve e serviu pra nos distrair da realidade.
Mas isso aqui é sobre filmes. Pra dizer que não tem nada errado nisso de gostar de um filme porque ele te faz navegar pra longe da sala sem graça onde você estava sentado na hora em que o assistia.
Aqui alguns filmes que visito e revisito há anos, antes de mais nada por causa dos cenários.

Shadowlands. Ah, a história da literatura seria tão diferente se eu morasse neste filme!... Não tem dúvida: aquela casa do Anthony Hopkins me faria escrever prateleiras de obras-primas. A mestria, o domínio perfeito da perícia verbal que emanariam daquelas paredes e se depositariam no papel com a suavidade e a certeza de um rio calmo... É isso: minha falta de talento é geográfica. Melhor, imobiliária.



Enchanted April. Neste juntam-se a Inglaterra e a Itália, minhas duas paixonites geográficas. O Castello Brown fica em Portofino. Passou de mão em mão desde mil oitocentos e sei lá quanto até ser comprado pela cidade em 1961 e virar atração turística. O livro que inspirou o filme foi, se não me engano, escrito nesse mesmo castelo, em 1922. 


Stealing Beauty. Claro que a presença da Liv Tyler aprimora a paisagem, e eu ficarei seriamente decepcionado se descobrir que ela não vem junto no pacote, quando comprar aquele sitiozinho na Toscana.



Hanna e suas Irmãs. Acho que Nova York nunca foi, nem deve ser de verdade, tão bonita quanto neste filme.


A Room With a View. Ivory e Merchant eram especialistas em confeitar Sabrinas e Júlias para boas moças alfabetizadas de ambos os sexos, e este em particular, com seu roteiro que achata as sutilezas do livro e injeta glicose no que já era groselha, e seu casal de protagonistas que somados têm o talento de um Gianechini bêbado, deveria fazer E. M. Forster lamentar o seu conhecimento do alfabeto. Mas ói outra vez a Itália e a caipirada inglesa e seus gramados quadricentenários juntos para compensar a contento os suplícios menores.

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