tanta tormenta, alegria

7 de abr. de 2011

Mencken


Tropecei num pedaço disso na internet, onde mais? e depois de procurar um tantinho, parece que consegui juntar duas ou três partes que fazem um todo coerente. Não sei se o texto é autêntico, não sei se está completo. Mesmo assim, acho que vale uma lida. Traduzi.
Diz que é a resposta a uma enquete publicada em setembro de 1930 na revista The Forum.


O Credo de Mencken

Acredito que a religião, de maneira geral, tem sido uma maldição para a humanidade – que seus modestos e grandemente superestimados serviços no campo da ética têm sido mais que sobrepujados pelo dano que ela causou ao pensamento claro e honesto.
Acredito que nenhuma descoberta de um fato, por mais trivial, possa ser totalmente inútil para a raça, e que nenhum trombetear de falsidades, por mais virtuosa sua intenção, possa ser nada além de vicioso. 
Acredito que todo governo é maléfico, na medida em que todo governo deve necessariamente fazer guerra contra a liberdade, e que a forma democrática é tão ruim quanto qualquer das outras formas.
Acredito que as evidências a favor da imortalidade não são melhores que as evidências a favor da existência de bruxas, e merecem o mesmo respeito.
Acredito na completa liberdade de pensamento e expressão – igual para o mais humilde e o mais poderoso, e na mais extremada liberdade de conduta que seja consistente com a vida em sociedade.
Acredito na capacidade do homem de conquistar seu mundo, e de entender do que ele é feito, e como ele funciona.
Acredito na realidade do progresso.
Acredito – mas a coisa toda, no fim, pode ser dita bem simplesmente. Acredito que é melhor dizer a verdade que mentir. Acredito que é melhor ser livre que ser um escravo. E acredito que é melhor saber que ser ignorante. 

Rimas ricas: shel silverstein


O Tio Shelby, nascido em 1930 e morto em 1999, foi um daqueles caras que nunca soube direito o que queria fazer, então parece que resolveu fazer tudo direito. Ótimo desenhista (ilustrava seus livros), escritor de livros infantis (leia o “Leocádio, o Leão que Mandava Bala” e “Uma Girafa e Tanto”), cantor e compositor (conheço pouco o trabalho musical, mas um cara que fez “25 Minutes to Go”, “A Boy Named Sue”, gravadas pelo Johnny Cash, e “The Ballad of Lucy Jordan”, gravada por todo mundo, devia ter algum talento), ele era também um bom poeta.
Aqui estão dois poemas, que traduzi meio de qualquer jeito.
Ah, ele também escreveu para teatro, mais de cem peças de um ato.


Picture Puzzle Piece
One Picture puzzle piece
Lyin' on the sidewalk,
One picture puzzle piece
Soakin' in the rain.
It might be a button of blue
On the coat of the woman
Who lived in a shoe.
It might be a magical bean,
Or a fold in the red
Velvet robe of a queen.
It might be the one little bite
Of the apple her stepmother
Gave to Snow White.
It might be the veil of a bride
Or a bottle with some evil genie inside.
It might be a small tuft of hair
On the big bouncy belly
Of Bobo the Bear.
It might be a bit of the cloak
Of the Witch of the West
As she melted to smoke.
It might be a shadowy trace
Of a tear that runs down a angel's face.
Nothing has more possibilities
Than one old wet picture puzzle piece.


Peça de Quebra-Cabeça

Uma peça de quebra-cabeça
Largada na calçada,
Uma peça de quebra-cabeça
Encharcada na chuva.
Podia ser um botão azulado
No casaco da mulher
Que vivia num sapato.
Podia ser mágica sementinha,
Ou um vinco no manto
De veludo vermelho da rainha.
Podia ser a dentada, bem de leve,
Na maçã que a madrasta
Deu pra Branca de Neve.
Podia ser duma noiva o véu
Ou a garrafa de um gênio cruel.
Podia ser um tufinho de pelo bem fino
Na pança que dança
Do Urso Ursolino.
Podia ser um fiapo que esvoaça
Da capa da Bruxa do Oeste
Quando ela derrete e vira fumaça.
Podia ser a sombra do risquinho
Duma lágrima correndo no rosto dum anjinho.
Tanta coisa pode ser, mais que tudo que eu conheça,
Uma velha e molhada peça de quebra-cabeça.

Bear In There

There's a Polar Bear
In our Frigidaire--
He likes it 'cause it's cold in there.
With his seat in the meat
And his face in the fish
And his big hairy paws
In the buttery dish,
He's nibbling the noodles,
He's munching the rice,
He's slurping the soda,
He's licking the ice.
And he lets out a roar
If you open the door.
And it gives me a scare
To know he's in there--
That Polary Bear
In our Fridgitydaire.

Um Urso Lá

Temos um urso polar
Na geladeira a morar -
Ele gosta de se refrescar.
Com o rabo no rosbife
E a cara na coalhada
E as garronas cabeludas
Na travessa amanteigada,
Ele trisca no talharim,
Mastiga um tacho de arroz,
Ele suga toda a soda,
E lambe o gelo depois.
E que rugido eu ouvi
Quando a porta eu abri.
E, uau! que susto me dá
Saber que ele está lá
Aquele urso polar
Na geladeira a morar.

6 de abr. de 2011

Você sabia que o marlon brando sabia soletrar?

Sempre ouço um estalinho de porcelana trincando ao saber que alguém entrou na faculdade pra estudar cinema. É o meu coração confrangido que se encolhe, apavorado e cheio de piedade. Isso acontece também quando ouço as palavras faculdade, universidade, estudo, academia, e outras relacionadas ao que me parece um suplício que muita gente ingênua se autoinflige com as mais perfeitas desnecessidade e boa fé. Se a vítima é alguém conhecido, então... noites e noites de triste insônia me esperam... Mas se a faculdade é de cinema, a irretocável estupidez da coisa soa tão violentamente agressiva que dói feito um bom pé nos bo... garts...?
Pois aconteceu há um tempinho. Sobrinha de um grande amigo nosso, eu soube, estudava cinema, e lhe pediu ajuda pra fazer um trabalho. O choque atingiu níveis, e até cumes e píncaros, inesperados, quando ouvi o tema (O Tempo no Cinema) do trabalho, e trechos (um trecho do primeiro parágrafo, na verdade) do texto que lhe deveria servir de base. O Tempo no Cinema... O texto era do Gilles Deleuze... Nosso amigo, coitado, pastou na tentativa de ajudar, levado por desinteressado amor, sua ingênua parentazinha. Conversando um pouco sobre o assunto, assustamo-nos (ingenuidade nossa, agora; já devíamos esperar) com a galopante mediocridade, com a acachapante obtusidade, dos livros e idéias que vêm sendo entuxados em tais cabecinhas, tão evidentemente desprovidas de anticorpos aptos a combater esse tipo de praga. Isso me fez organizar essa listinha. Sugestões de leitura àqueles que se interessem por cinema. Não foi fácil, antes de mais nada porque ler sobre cinema é, talvez, a mais perfeita forma já criada de perda de tempo. Então sugiro, primeiro, que você não leia sobre cinema. Caso lhe pareça que exagero e você insista (ah, a curiosidade dos jovens, a ânsia de saber, de abraçar o desconhecido!), em deslindar as tramas e os dramas das imagens em movimento, a dificuldade seguinte é encontrar algo que mereça ser lido. Tentei ficar só no que me parece básico. Vejamos.
Guia de vídeos/DVDs. Não conheço uma publicação ou site que forneça uma listagem confiável do que existe ou não em DVD no Brasil. Na falta de outros, os livros do Rubens Ewald Filho podem ser úteis.
História do cinema. Um ou dois livrinhos simples só para saber quem nasceu primeiro, Tarantino ou Mèliés. Existem livros baratos de Inácio Araújo e Luís Carlos Merten nos sebos.
Um dicionário de termos técnicos. Para saber o que é traveling, tomada, fade in, essa papagaiada toda.
Teoria do cinema. Se você quiser mergulhar em teoria e coisa e tal, tem um livrinho curto chamado As Principais Teorias do Cinema, de J. Dudley Andrew. É mal escrito. O tom, como se pode deduzir pelo título imaginativo, não é lá muito colorido, festivo ou eletrizante, mas sério e solene, bem adequado para tratar de temas como a morte e as doenças venéreas. É o tom oficial e internacional da Acanemia, e as teorias em si me parecem absolutamente inúteis, mas o livro cobre o principal do assunto rapidamente.
Crítica. Aqui a situação é um pouquinho menos desesperadora. Críticos geralmente são menos crétinos que teóricos, mas ainda assim poucos são capazes de andar sem consultar um manual de instruções. Alguns: Ruy Castro apadrinhou, organizou, prefaciou e posfaciou dois livrinhos dos melhores já lançados no Brasil sobre o tema. Um colige textos de Antonio Moniz Vianna e o outro de José Lino Grünewald. De meu conhecimento, estão entre os melhores críticos em qualquer época ou lugar. Complemente a leitura destes com o livro de artigos do próprio Ruy, organizado por Heloísa Seixas. Parêntese para dizer que nós, no Brasil, não temos o hábito de pôr em livro o trabalho publicado em jornal sobre qualquer assunto, inclusive cinema. Isso torna difícil o acesso a escritos de uma multidão de pessoas capazes. Salvo ignorância minha, faltam-nos coleções de textos de Alex Vianny, Rubem Biáfora, Carlos M. Mota, Pola Vartuk, Inácio Araújo, e mesmo Sérgio Augusto.
A Brasiliense lançou, na década de 80, uma coletânea de textos de André Bazin com título Ensaios, que eu francamente acho dispensável pra quem quiser se limitar ao fundamental. Dificílimo encontrar esse livro em sebos, mas é mais interessante que os dois ou três dele atualmente em catálogo.
Pauline Kael, 1001 Noites no Cinema. Também acho melhor, se você quer ficar no essencial, do que o outro dela em português, Criando Kane e Outros Ensaios, com textos mais longos. Esse 1001 Noites no Cinema tem resumos de críticas, bem curtinhos e cobrindo filmes de todas as épocas e lugares. Mas no Criando Kane está um texto fundamental, chamado Lixo, Arte e Cinema.
Truffaut. O Prazer dos Olhos. Escreve bem.
Alguns dos melhores livros que já li sobre cinema são biografias. No caso, autobiografias. Três: John Huston, Akira Kurosawa e Ingmar Bergman.
Lillian Ross. Filme. É possível que seja o melhor livro sobre cinema. Reportajona sobre as filmagens de Glória de um Covarde, um fracasso épico na carreira de John Huston.
Gore Vidal tem um ensaio magistral no livro De Fato e De Ficção, chamado, se não me engano, Quem Faz os Filmes. Idem Paulo Francis no volume 1 das coletâneas do Pasquim saídas há uns anos. O texto se chama Mata que é Crítico.
Muitos dos melhores escritores estrangeiros na área nunca foram publicados no Brasil, de novo salvo ignorância minha. Se puder ler inglês e tiver dinheiro, leia James Agee e Dwight Macdonald, e David Thomson e Penelope Gilliat. Esses são apenas alguns de que lembro sem esforço, e todos de língua inglesa. Se quiser procurar mais, tasca na Viquipédia um, sei lá, list of film critics, e vê o que acontece.
E assim chegamos à intelnétia. Aí a oferta é vastíssima e inapreensível no período de uma vida. Felizmente a maior parte é perda de tempo. Dos sites vale o óbvio IMDB. E a própria Viquipédia é útil. Both in english. Ah, tem o TSPDT. Em vernáculo, temos pouco que preste. O blog do Carlos Reichenbach talvez seja o melhor.
Taí. Já tem coisa até demais. Para quem se interessar mesmo, aprofundar a pesquisa por conta a partir disso é fácil.

Batuque na cozinha

Visconti é o Zefirelli dos intelectuais.
b
Vivemos num tempo de tão escandalosa covardia mental, que as pessoas acabaram por se acomodar com a confortável e preguiçosa noção errada segundo a qual tolerância significa não ter opinião, ou pelo menos calar opiniões, caso as tenhamos. Nos tornamos sensíveis, ai, tão sensíveis!, às palavras, que virou um pecado chamar as coisas pelo nome. Não se pode mais chamar um idiota de idiota, ou dizer que alguém que acredita em espiritismo é o demente que de fato é. Ter esta opinião, e expressá-la, não é intolerância. Intolerância seria recusar ao infeliz seu direito à cretinice.
k
Semana mais que atípica. Dois filmes bons em seqüência. E recentes. Invictus e Um Homem Sério. O primeiro é fantasia, mas é bonito. Mr. Clint Eastwood sabe fazer um filme palatável. Mas o negócio mesmo é o outro. Há que se reconhecer: os Coen Bros. são os dois melhores diretores americanos trabalhando. O talento do Scorcese vem coxeando há tempos, desde Cassino. Woody Allen se perdeu no limbo da autoparódia. Coppola, o eterno capo, ainda não voltou de entre os mortos. Eastwood é um peso médio supervalorizado. Spielberg às vezes acerta, mas encaçapa a branca. Mais novos: Linklater, Tim Burton, Shyamalan, e Paul Thomas Anderson. Os três primeiros parecem já ter dado o que podiam, sem nunca realizar o que prometiam. O último tem que tomar cuidado pra não se escafeder na estratosfera, tão inflado que é de pretensão. O resto... bom, infelizmente não é silêncio. E só pra constar, no filme dos Bros., nossos crípticos boiaram de novo.
f
Política e barbárie são irmãs siamesas.
ç
O tempo só acrescenta frescor à grande arte e ao grande amor.
x
Que o tempo trouxesse qualidade à televisão, seria esperar não mais que o óbvio. Afinal, se a prática não traz necessariamente a perfeição, é certo que aumenta a proficiência. Que esse tempo ande lentamente não vem ao caso. Correndo ou se arrastando a inércia faz seu trabalho. Mas repetir os atuais louvores à suposta superioridade da televisão sobre o cinema... Certo, alguns filmes, seriados ou não, apresentados de uns (muitos, na verdade) anos pra cá, são tão bons ou melhores que a maioria dos filmes que o cinema nos vendeu no mesmo período. Só que em parte, em grande parte, as qualidades alardeadas desenvolvem com mais ou menos competência o que já era feito no cinema há décadas. Algo criado exclusivamente pela televisão? Não conheço. E não esqueçamos também que o cinema anda, usando o tom mais delicado que posso, uma porcaria lamentável e fedorenta que ofende a sensibilidade e os neurônios de qualquer um que tenha evoluído o suficiente para usar papel higiênico sem ajuda.
Um recurso que a televisão tem, e o cinema não, é esse de contar histórias longuíssimas. Numa série, ou minissérie, seria fácil adaptar Guerra e Paz, ou O Tempo e o Vento, ou O Senhor dos Anéis, sem deixar nada de fora. Hoje então, quando é moda lançar e comprar essas coisas em DVD, o que é outra forma de lucrar, além dos velhos reclames, nem se fala. Assim, enquanto o cinema se assemelha a contos ou poemas, a depender do tom, na televisão seria possível criar romances, que evoluem mais devagar e permitem aprofundar mais personagens e situações. Mas esse recurso raramente é bem usado. O comum ainda é o velho folhetim. Nada contra. Talvez seja mesmo a vocação da TV. Mas acho que seria possível ir mais longe. Vide Bergman em Cenas de um Casamento e Fanny e Alexander, ou Fassbinder em Berlim Alexanderplatz.
r
Somos criaturas que inventam mundos imaginários dos quais podemos nos sentir exilados.

5 de abr. de 2011

Por quê?

É... bom..., tô aqui, né? comendo essa vaquinha...
Me imaginem com as mãos trançadas nas costas, chacoalhando o corpo, os pés voltados para dentro e os joelhos se tocando, os olhos baixos e pidões...
Sei lá porque raio fazer isso. Tédio? Não, a última vez que senti isso foi um dia lá em 1983, mais ou menos, quando fui beber no habitual boteco imaginário com D. Pedro I, Bolívar, Marx, Lênin, Robin Hood, o Capitão Blood e todos meus outros heróis e percebi, de repente, o quanto eles eram chatos. Só falavam de política, de grana, e de como eles eram macho e tal, e quando o D. Pedro ficou meio bêbado e começou a querer encoxar a garçonete que o Marx andava pegando, bom... digamos que os velhinhos tentando brigar foi um espetáculo revelador.
Larguei os caras lá, passei a escolher melhor minhas companhias e nunca mais senti tédio.
Então o quê? Registrarei aqui meus pensamentos e reflexões coalhados de sabedoria e lirismo? Não, a historinha acima já responde a essa pergunta. Não tenho nada a dizer a ninguém, não. Nem sabedoria nem lirismo nem nada não siôr. Só falação.
Também não estou ganhando um tostão para escrever, o que me põe na categoria dos idiotas, de acordo com o Dr. Johnson.
Então por quê? Se não é tédio, dever existencial ou grana, por quê? Qual o sentido?
Acho que é justamente isso: nenhum sentido. Escrever é um hábito inútil, agradável e sem sentido. E o que nos torna homens civilizados é isso, cultivar hábitos inúteis e aprazíveis.
*

Bom, às vezes ainda vejo o Errol...

Seguidores